Mas e eu? Black Lives Matter e o Cristianismo

For an English version of this article, see But what about me? BLM and Christianity.


Matheus Reis é um Brasileiro-Americano, estudante de PhD no Centro para o Estudo do Cristianismo Mundial, Universidade de Edimburgo. Sua pesquisa se concentra no Protestantismo Brasileiro nos Estados Unidos.

Fotografia obtida por Jacqueline Cabrera

Quantas vezes fizemos a pergunta, mas e eu? Em uma conversa recente com meu sobrinho sobre os protestos do Black Lives Matter (As Vidas Negras Importam), que estão ocorrendo em resposta ao assassinato de George Floyd, conversamos sobre o quão difícil essa frase havia se tornado para algumas pessoas, e como a primeira reação delas ao ouvirem alguém dizer “Black lives matter” havia sido se perguntarem: mas e eu? A minha vida não importa? Mas todas as vidas não importam? 

Lembrei-me de uma história bíblica bem conhecida sobre o filho pródigo, que desperdiçou a herança de seu pai em uma vida de erros, mas que também recuperou o juízo, voltou para casa, e recebeu o perdão de seu pai. A história do filho pródigo nos ensina principalmente sobre a incrível graça de Deus, que é capaz de superar nossos erros, perdoar nossos pecados e restaurar nossas vidas, independente do que tenhamos feito. No entanto, dentro dessa história encontramos outro personagem cuja visão da vida é muito semelhante a muitos de nós, o irmão mais velho, e com quem podemos aprender. A história nos conta que quando o irmão mais velho chegou em casa e viu que seu pai estava comemorando o retorno de seu filho que se havia perdido, o irmão mais velho ficou com raiva! Ele disse ao pai: “Olha! todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos. Mas quando volta para casa esse teu filho, que esbanjou os teus bens com as prostitutas, matas o novilho gordo para ele!” (Lucas 15: 29-30, NVI). 

Em outras palavras, o irmão mais velho disse ao pai, mas e eu? Eu não importo para o senhor? O senhor não me vê? Embora a analogia seja limitada, uma vez que as próprias ações do filho pródigo o levaram as suas aflições, e a opressão da comunidade negra chegou pelas mãos do racismo, algo ainda pode ser aprendido sobre a interação entre o irmão mais velho e o seu pai. Acredito que a resposta do pai é muito relevante para nós hoje: “Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu” (Lucas 15:31, NVI). Então, a minha pergunta é a seguinte: somos todos realmente filhos e filhas de Deus, todos criados à imagem de Deus, independentemente da nossa descendência ou da cor da nossa pele? Se dizemos que sim, por que ainda perguntamos: mas e eu?

Como cristãos, temos a responsabilidade de seguir o exemplo de Cristo, que deu a sua vida pelo bem dos outros. Somos chamados a viver vidas altruístas, a favor dos outros, e de elevar aos outros, assim como seus melhores interesses. Como as palavras de Paulo nos lembram:

Se por estarmos em Cristo nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.

Filipenses 2: 1-4, NVI

Somos chamados a valorizar os outros acima de nós mesmos, não olhando para nossos próprios interesses, mas para os interesses dos outros. Não vou dizer que este é um chamado fácil, mas direi que é o chamado cristão, o chamado bíblico. Mas e eu? Isso significa que não tenho mais importância porque tenho que dizer que os outros são mais importantes? Lembro-me das palavras impactantes que um pastor me disse uma vez: “Não é um chamado para pensar menos de si mesmo, mas para pensar em si mesmo menos.”

Ao ler as bem-aventuranças, muitos podem ficar confusos e perguntar: eu tenho que ser pobre e oprimido para ser abençoado por Deus? Não, não somos chamados à sermos oprimidos para sermos abençoados por Deus, mas somos chamados a compreender que quando um de nós é oprimido, todos somos! Paulo também nos ensina que somos todos membros de um corpo, e que as partes do corpo que pensamos serem as mais fracas são, na verdade, as quais sem não poderíamos viver. Então sim, direi “Black lives matter” porque as vidas negras são importantes, e porque as vidas negras fazem parte do corpo de Cristo, e quando uma parte do corpo dói, o corpo inteiro sente e expressa.

Muitas vezes, podemos ter dificuldade de ter empatia com situações com as quais não podemos nos identificar. Quando ouvimos falar de tiroteios em um cinema, escola, ou na rua principal de Las Vegas podemos nos ver facilmente nos rostos das vítimas, com a raiva e o medo de que a tragédia pudesse ter acontecido com um de nós. Minha pergunta é: quando você olha para George Floyd, quem você vê? Para muitos na comunidade negra, eles veem o pai, o irmão, o filho, ou até a si mesmos, como um corpo mole deitado na rua. Quem você vê? Você vê seu irmão? Seu próximo? Ao falar sobre o reino de Deus, Jesus disse que Deus abençoará aqueles que o visitaram na prisão, mas como alguém o visita na prisão, você pode vir a perguntar? Jesus responde: “Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram” (Mateus 25:40, NVI). George Floyd era um ser humano, feito à própria imagem de Deus, mesmo se alguém pensasse que ele era um criminoso. Quando você olha para ele, você pode ver Jesus? Em vez de perguntar, mas e eu, deveríamos estar perguntando: e o meu próximo? E Jesus? E quanto a nós, seu corpo?

Somos pessoas egocêntricas e egoístas por natureza, atributos que são apenas intensificados pelo apelo individualista de nossas sociedades e, de várias maneiras, da nossa compreensão individualista do evangelho. Muitas vezes perdemos o verdadeiro significado de comunidade, uma ideia profundamente arraigada nas páginas das Escrituras. Somos nós que perguntamos a Jesus, quem é o meu próximo? Como se Jesus devesse nos dar uma lista de quem devemos amar baseado em nossas semelhantes experiências ou cultura. Jesus, no entanto, nos ensina “como” ser um próximo, que é amar aos outros, especialmente aqueles que aparentam ser diferentes de nós, e que têm uma origem diferente de nós. O amor que Jesus prega é um amor escandaloso que vai além das afirmações e divisões humanas, e somos chamados a ir e fazer o mesmo. As pessoas devem nos conhecer pelo nosso amor, mas infelizmente alguns de nós somos mais conhecidos pelo nosso ódio. Então, quando nossos irmãos e irmãs negros dizem: Black lives matter, podemos juntar-nos a eles e elas declarando isso também, ou ainda queremos continuar pensando principalmente em nós mesmos e dizer, mas e eu? Não estou pedindo que você pense menos de si mesmo, apenas que pense em si mesmo menos.

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